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4 de mai. de 2011

O Exercício

Miúda, mas dona de olhos negros e grandes, caminha firme até a professora. Diante da turma, surge o convite para explicar o significado da palavra esperança.
Não está segura e a saída é responder com perguntas.
Esperança...
Será levantar o véu e descobrir o truque do mágico?
Quem sabe, brincar com um papagaio. Levantar o pássaro multicolorido e quietinha olhar uma, duas, três, quatro voltas da pipa até vê-la alcançar a mais baixa ou alta nuvem?
Talvez para alguns a esperança seja fechar os olhos, ouvir o som do vento e distinguir o grito de meninos do outro lado do mundo: GOOOOOOL!
Ou quem sabe tentar ganhar o biscoito da sorte na festa junina?
Para o meu pai, esperança é tentar fotografar o beija-flor no exato momento em que o bichinho tocar a sua caça.
Não sei professora, mas acho que a esperança é igual recreio: o seu tempo é tão breve, mas sempre volta no dia seguinte.
Sempre.



Duda Cambará

29 de nov. de 2009

Meu Tempo

Envelheci. Não só nas rugas, nos cabelos brancos, na barriga protuberante.
Envelheci na alma, na falta de planos, na ausência de sonhos.
Envelheci no espírito, no acúmulo de medos, na abundância de fobias.

Houve épocas em que o tempo era diferente. Até meus vinte anos ele estava por vir, tudo estava por realizar-se. O Brasil era o país do futuro, eu era o embrião/mistura de Liz Taylor, Gina Lolobrígida e Sofia Loren, potencial/intelecto de Leonardo da Vinci, Einstein e Madame Currie.

Então, até os 60 anos, o tempo era insuficiente, reloginho disparado qual coelho branco de Alice, onde as obrigações, tarefas e prazeres da mãe/esposa/professora/administradora/mulher/ amiga/visinha/filha/tia/irmã/patroa disputavam à tapas pelo privilégio de serem realizados aqui e agora, hoje e ainda hoje.

Agora o tempo começou a escapar pelos meus dedos, gosma suculenta e escorregadia a respingar pelo chão, a alagar o piso, quadro por quadro, a impregnar o ar com cheiro de bile, de cachorro molhado, de suor azedo.

Se considerar a longevidade dos meus ancestrais, como vou suportar o tempo nos próximos 20 ou 30 anos? Como desentupir os ralos para que a gosma flua e o chão possa ser lavado? Como desenterrar os cadáveres dos inúmeros filhos que não tive, dos truculentos amores que não vivi, dos mirabolantes anseios que não senti, para exorcizá-los na pira mágica onde arde o fogo eterno?

Como recuperar meu fôlego para olhar o mundo plainando numa asa delta? Como reviver minha ousadia para espiar animais selvagens numa floresta virgem? Como aflorar meu destemor para explorar navios fantasmas nos abismos submarinos? Como realinhar meu esplendor para envergar o vestido longo e prateado entre os braços do príncipe, valsando e rodopiando nos salões de baile? Como reacender minha voz para, sentada no tampo do piano de cauda, vestido vermelho tomara-que-caia, fenda aberta numa lateral expondo torneadas coxas, aquecer corações ao som do meu Summer Time?

Na verdade, acima de tudo, o que fazer com a próxima meia hora?
Sonia Soares

26 de nov. de 2009

Com-sequência


Não queria pensar muito...encucar! Queria viver, curtir o “barato”, o prazer de ter dezessete anos em plena “Era de Aquário”. Sexo, drogas e rock’n roll”, Woodstock, viagens alucinantes (ou alucinógenas?) se misturavam com templos budistas e comidas macrobióticas — John e Yoko. “Let the sunshine in” era o verso que todos cantavam! Só o que eu queria era estar curtindo aquele momento, o do “não esquento”. Esse era o meu barato; a minha desculpa, a pouca idade — tinha que experimentar!

Geração hippie! Paz e amor! A gente se fantasiava: túnica indiana, calça boca-de-sino, sandália e bolsa de artesanato, cabelo longo (os meninos e as meninas se confundiam — tão parecidos!) e muita bijuteria. Tudo era maquiagem (Mary Quant, de preferência) e, como a minha era muito pouca, logo me revelava. A burguesinha, menina de boa família, aparecia quando a “barra pesava”. “Lucy in the sky with diamonds”. Tô dentro …tô fora? …E se …Como saber?

O tempo passa e a gente vai vivendo, aprendendo. Viver endurece. Para uns, as coisas vão acontecendo...aos poucos...como conta-gotas...e, por vezes, fortes...quimioterápicos... O cenário muda e o personagem também. A menina “bicho grilo” se transformou num “bom-bril”: tem 1001 utilidades. Tem tanta coisa para fazer, várias acontecendo ao mesmo tempo, “preciso de mais tempo”, “não tenho mais tempo”, é tudo muito rápido. Respira...hummm...

Agora, já não é mais fantasia, é tudo de verdade: marido, filhos, amigos, compromissos...Help! preciso da ajuda de alguns diamantes coloridos! Penso mais e muito, tanto!! Busco o equilíbrio — não o do equilibrista — porque sei que, às vezes, é necessário cair; faz parte do crescer. Aprendi que é muito fácil ficar triste, mas também é muito fácil ficar feliz. Escolhi ficar feliz; gosto das coisas simples, descomplicadas e, então, procuro ter uma vida tão boa quanto ela puder ser. “Let it be”.

E “If the sky above you is dark and full of clouds”, ligo o som: “abro as minhas asas, solto as minhas feras” e deixo a “gatinha louca” sair…ela me faz muito bem!

Mitz

17 de nov. de 2009

Oração a Nossa Senhora das Manhãs

Minha Nossa Senhora, recorro, agora, a seu atributo de protetora das manhãs, pedindo-lhe proteção para essa hora em que meus olhos se abrem e se arregalam agoniados, fitando o novo e desconhecido dia. Acredito que me compreenderá e que tudo fará para me ajudar, pois,como dizem os cristãos, foi ao alvorecer que o anjo lhe pegou de surpresa, sem ao menos lhe dar tempo de pentear os cabelos ou tomar o café de manhã, com a bombástica notícia de sua divina maternidade. Rogo-lhe que invoque suas tantas outras atribuições e venha em meu auxílio.Assim, dirijo minha prece:
- a Nossa Senhora das Vésperas, na esperança de um dia anterior fecundo o bastante para que sobre qualquer coisa interessante e urgente para o dia seguinte;
- a Nossa Senhora das Boas Noites, para que me defenda da insônia, dos pensamentos negativos e das tentativas de solução do que já não tem;
- a Nossa Senhora dos Calmantes, para que nunca me falte, me acalme e suavize meus movimentos e sentimentos através da mentalização;
- a Nossa Senhora dos Sonhos, para que afaste de mim os pesadelos e me permita sonhar com esperanças, desejos e prazeres;
- a Nossa Senhora da Coragem, para que me dê a mão quando o dia começar a clarear;
- a Nossa Senhora do Horário de Verão, para que convença o sol a se atrasar um pouquinho;
- a Nossa Senhora dos Despertadores, para que eu seja acordada por cantos da natureza, em vez de sirenes assustadoras;
- a Nossa Senhora do “Meu Deus, Mais Um Dia Difícil”, para que não me deixe ficar repetindo essas palavras, sentada na cama, com lágrimas nos olhos, nó na garganta e mãos e pés atados;
- a Nossa Senhora do Guaraná em Pó, para que nunca me falte força para sair da cama e de casa; - a Nossa Senhora das Decisões e do Ir Em Frente, para que eu consiga decidir minhas metas imediatas e me direcionar a elas;
- a Nossa Senhora do Dia de Hoje, para que caminhe comigo em busca de surpresas e realizações, me afastando das mesmices e dos desagrados.
Novamente recorro a Nossa Senhora das Manhãs, especificamente, em sua sutil representação de Nossa Senhora do Café de Manhã, a quem rogo para que me favoreça com o bom apetite físico e espiritual,para que não permita que minhas certezas – as que porventura tenha conseguido como presente da Virgem Protetora – alimentem-se de dúvidas escondidas ou disfarçadas em pão, manteiga e café com leite.
Amém
Luiza Lagôas

30 de out. de 2009

Saia, ou não saia! —saiu!!!



Enfim, me pronuncio! A demora se justifica pelo desejo amoroso: quando o que queremos muito, acontece, sentimos a angústia de quem ama, ao se deparar com o ser amado. Não se sabe o que dizer, que atitude tomar, como corresponder à expectativa daquele que se nos apresenta tão brilhante e tão disponível!

Queria poder encontrar o dito mais certo, a palavra mais exata para traduzir a emoção de ver que o trabalho frutificou como, aliás, era de se esperar: a árvore blog é frondosa e seus frutos-textos, deliciosos.

Minhas queridas parceiras: cavoucamos a terra juntas, escolhemos nossas melhores sementes, depositamo-las com amor e acompanhamos o crescimento de nossas árvores. Nesta tarefa, não há mestres, a não ser se estes forem como os define Guimarães Rosa: “Mestre é aquele que de repente aprende”

Maria Luiza de Castro da Silva


28 de out. de 2009

Registro dos Ventos

Que o passado permaneça no registro dos ventos. Não quero diários nem cartas ou lembranças, nenhuma memória. Quero o passado voando para longe de mim. Para isso, eu conto com o vento; sempre contei.
Foi desde sempre, do início, quando jamais me atingiu a tal corrente de ar, lufada assassina de minha infância, temida pelos adultos que alardeavam seu mal. Brinquei nas brincadeiras do vento, sofri nas calmarias das gentes. Sobrevivi às correntes.
Com os ventos a meu favor, adolesci em veleiros empurrados por seus sopros fortes, garantindo-me vitórias e inaugurando-me em amores.
Bons ventos conduziam-me vida afora, oscilando entre humores de brisa e outros de vendaval. Não temi seu sábio sopro que, lento ou rápido, forte ou fraco, quente ou frio, me lançava para frente, ancorando-me em presentes valiosos, com tempo certo de gozar ou de sofrer, a caminho do futuro.
Os ventos registram os fatos, anotam as emoções, observando de longe o real do acontecido e do sentido que a lembrança fantasia e atrasa o rumo em frente. Tudo o que havia até ontem vai ficando para trás, para muito antes de ontem, mês passado no registro frio dos ventos, para que o saibamos sem volta e que nem era tão bom aquilo por que a gente geme mais com medo de ir em frente do que por própria saudade -: “Ai, como foi bom!”.
Agradeço, sem medo humano de castigos, à corrente de ar que pegou minha memória despida e matou minha saudade.
Quero o novo, o amanhã, o futuro bem plantado no presente arejado, respirável, protegido e registrado pelos ventos de boa-sorte. Deles me faço parceira.
Que o passado e as saudades - calmarias permaneçam sempre no registro dos sábios ventos.
Luiza Lagôas

Autópsia

“Exame de si mesmo”.
(Dicionário Aurélio da língua portuguesa).

Nua, na frente do espelho, dedico-me de corpo e alma, ao desejo ardente de enxergar meu coração. Pressinto-o escondido em um recanto do meu peito, num abraço apertado às suas verdades e aos seus segredos vermelhos, não querendo se mostrar nem a mim, seu frágil e fiel esconderijo.
Fixo os olhos em meu peito refletido, implorando-lhe transparência. Exploro-o com minhas mãos, procurando o lugar que adivinho especial e que me abrirá caminho para o encontro. Quero conhecer meu coração. Quero examinar o que o faz sofrer e o que o faz feliz; quero saber onde mora a semente do meu amor e da minha angústia.Quero meu coração exposto, vindo à tona, mesmo que me rasgando o peito sem anestesia e sem escrúpulos de cicatriz.
Ao meu toque, sinto-o bater tão longe que não identifico se num pedido de socorro ou num grito de repúdio.
Peço-lhe, em oração pagã, que se entregue a mim, que se exponha despudoradamente, que se jogue em minhas mãos para o carinho quente e sensual que o conduzirá – quem sabe? – pulsante de prazer, a outras mãos, outros peitos, outros corpos.
Quero meu coração exposto a mim e ao mundo. Confiante, sem culpa por suas fraquezas, sem medo de críticas, senhor dos seus sentires. Forte, sem dores de morte, sem mágoas guardadas, sem pena de si. Valente, de frente para o novo, pronto aos desafios, sem medo de errar. Leve, sem pesos e danos que não precisa suportar. Sedutor, tecelão de suas redes, cuidador de suas presas, mestre de artimanhas delirantes.Quero meu coração assim e à mostra. Quero vê-lo assim e que todos o vejam como eu. Quero conhecê-lo e apresentá-lo com orgulho. Quero que esta seja a minha questão – de vida ou morte.
Nua, na frente do espelho, desespero-me por não conseguir o contato, por não poder dar ajuda.Tenho o peito e tenho a faca. Não tenho a coragem.
Luiza Lagôas

27 de out. de 2009

Receio

Receio que nosso amor termine. Que a vida nos separe. Que nossa sólida união se transforme em hábito; simplesmente.
Receio que você fuja para longe, que se esconda de mim, e, mesmo que o encontre se retraia como nuvem fugidia, como terra que aos poucos desmorona, como um sonho a cada minuto mais distante.
Mas que importa? Se no passado foi o que há de ser eternamente? Então, por que esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência?
Sempre, sempre, sempre...
Esta angústia excessiva por coisa nenhuma.
Que cansaço de minha própria imaginação.

Lucia Sad

23 de out. de 2009

BRINCAR COM OS OLHOS DE DENTRO


“O essencial é invisível aos olhos”
Antoine de Saint Exupery

Quisera poder domar meus olhos de dentro, ter a chance de cavalgar por paragens só deles conhecidas. Descobrir mundos novos e, pega de surpresa, não ter receios nem pudores ao vasculhar o desconhecido. Nossos olhos de dentro vêem todas as coisas que não podemos perceber com os de fora. Sabem de segredos íntimos que, se revelados, surpreendem. Deveríamos brincar mais com os olhos de dentro: montar no cavalo de pau da memória, viajar nas asas dos sonhos, encarar nossos medos no trem fantasma, bater pique com a imaginação, esconde-esconde com a lucidez. Com certeza veríamos as coisas de fora com outros - melhores - olhos.

Já dizia o “Pequeno Príncipe”: :” O essencial é invisível aos olhos”... de fora.
Celinha

POETANDO


A poesia é pura compaixão e, com paixão, cumpro a sina: o que sinto, escrevo. Escrevo sem dor, sem escrúpulos, sem medo, sem pudor. Torno-me carne exposta, carne viva. Grito, rio, esbravejo, acalento. Às vezes, pensamentos tolos embrenham-se nos versos e a mão empaca. Não me intimidam; a vida é uma grande brincadeira. Há momentos em que a saudade bate e mergulho no passado.Viajo, fantasio, sonho e finjo fazer poesia. Afinal, o poeta não é um fingidor?

Celinha

22 de out. de 2009

ANÚNCIO DE JORNAL


PRECISA-SE:


DE SONHOS E DE ESTRELAS CADENTES..

DE MENINOS QUE AINDA SONHEM COM ESTRELAS CADENTES.

DE ESTRELAS CADENTES QUE ENTENDAM DE SONHOS DE MENINOS CARENTES.


Ela era uma mulher comum, de uma família comum. Tinha um irmão preferido e, desde criança, compartilhavam suas brincadeiras infantis. Eram cúmplices e um fio brilhante de amizade os unia.

Ela era também artista e deixou que transparecesse em seus trabalhos sua alma ferida quando seu irmão deixou este mundo, vítima da violência das ruas. Impregnada de dor, dispôs-se a procurar e a descobrir na alma dos meninos infratores, a causa de tanto desamor e tanta agressividade. Se surpreendeu com o que descobriu e cobriu de amor a falta de amor. Transformou sua dor em trabalhos de um lirismo sem igual: violência contada na alvura de travesseiros infantis bordados em letras brancas; sonhos e anseios escritos em balões de gás que tocam um céu estrelado.

Sentiu que seu trabalho ainda não bastava: mensagem encerrada entre as paredes de um museu. Precisava gritar aos quatro ventos a necessidade de diminuir a violência; procurou os jornais, na esperança de encontrar pessoas, “estrelas cadentes”, para ajudá-la a minimizar a dor desses meninos e transformá-los em gente.

Celinha

21 de out. de 2009

Crença

Um dia virá em mim a certeza de Tua existência; pelas pequenas e pelas grandes conotações: criaste a beleza para sensibilizar o olhar, a música para o ouvido, e a alma para seu deleite; os braços para a necessidade do abraço, o ser amado para quem ama. Criaste o chão para a firmeza dos passos, o espaço para a invenção do tempo. Criaste o equilíbrio e o corpo para o desejo temporário da alma, porque criaste a morte, o grandioso passado recente da vida.
Por tua lógica, diante da criação que não poderia existir pelo irracional acaso, crerei cada vez mais em Ti, Deus, completamente livre de dúvidas.
Lucia Sad

19 de out. de 2009

Até cair

ATÉ CAIR!

Chegou de madrugada! Bêbada e com um dos sapatos na mão, pois o salto havia quebrado na quadra da Escola onde sambara durante toda a noite. Soltou os cabelos e jogou a fantasia em cima da cama. Ria sem parar e o pequeno apartamento onde morava e onde, por muitas vezes, se sentia só, passou a preencher-lhe com nunca. Ligou o rádio e continuou a dançar, sozinha, como havia estado à noite inteira. Exausta, abriu o chuveiro e deixou que a água caísse livre sobre seu corpo. O que sentia era uma alegria absurda.
Lucia Sad

18 de out. de 2009

MEUS MEDOS

Era dia de Carnaval, eu tinha oito anos e às 5.30 h. da tarde eu tive uma certeza. Fantasiada de cigana, escapuli da severa vigilância dos adultos e saí, portão afora, para dentro de um bloco de fantasiados barulhentos que passava em frente à casa de minha avó. Os mascarados e os índios brincavam comigo sem as ameaças impostas pelos seus trajes, e colhiam meu olhar e sorriso radiantes, meu dançar solto e rebolante acompanhando o ritmo do batuque. Foi quando, nem bem dez minutos eu entrara na festa, um mascarado, que não dançava, mas caminhava com passos largos em minha direção, segurou meu braço com força e tirou a máscara, mostrando uma cara feia de zanga: era o meu primo mais velho que, por ser menino e mais velho, tinha permissões. Tive medo dele sem máscara; adivinhava sua intenção de levar-me para casa com um discurso pronto sobre a minha “falta”. Tive medo do carrasco de rosto conhecido, como jamais tivera dos mascarados.
Anos depois, este episódio invadiu minha lembrança com uma revelação: o desconhecido jamais me provocara medo. Como eu poderia ter medo do que não me ameaçava? Como eu poderia temer o que eu ainda não me aventurara a conhecer, se a aventura e o correr riscos figuravam sempre nos primeiros lugares da lista de minhas preferências existenciais? Eu tinha, e tenho ainda, medo do conhecido, desde o meu primo mais velho.
Conheço a solidão, e dela, sim, tenho medo. Sei do horror de sua companhia, de sua desesperante convivência, do estrago que ela poda causar em uma vida.
Tenho medo das dores que já senti, dos ecos do que já disse ou escrevi, da cobrança do arrependimento pelo que deixei passar, sem viver o que me era oferecido em pleno gozo de meu conhecimento.
Tenho medo da acomodação. Tenho medo, muito medo, do conhecido que me desarmou, me desgostou, me fez enfraquecer- “Quisera ter o poder de dominar meu medo”.
Não temo a felicidade, essa desconhecida que insiste em não se mostrar ou se mostra tão pequena que eu não tenho olhos que a vejam. Não tenho medo do prazer que foge de mim como se, ele sim, vivesse amedrontado, sem querer me conhecer. Não temo a paixão, o desejo ardente, o grande prêmio; nem mesmo a morte me amedronta.
Quisera, sim, ter o poder de mais do que dominar meu medo, revertê-lo, transforma-lo em coragem, esperança ou coisa assim que me ponha forte em frente ao conhecido, e que ouse atormentar-me frente ao desconhecido.
LUIZA LAGÔAS

15 de out. de 2009

DESABAFOFO

Nem sei porque voltei hoje. Já cansei de você que não fala. Será que ouve? Ou só finge? Pensei que já estivesse fora de moda este tipo de analista que parece uma vaca ruminante, que só fala o final da frase que já foi dita, que abandona sobre o paciente todo o encaminhamento do processo terapêutico. Tem tanta coisa me sufocando e essa sua presença onipotente ressalta minha falta de ar. Queria falar do meu sonho só sonhado, do meu desejo de romper paredes, de formatar mundos utópicos...
Naquele tempo, ouviram as rua plácidas o som de um brado forte e retumbante, mas foi o sol do autoritarismo, em raios fúlgidos, que brilhou no céu da pátria, naquele instante. Quanto idealismo! Só mesmo o tempo mostrou como eram frágeis e ilusórios os propósitos de igualdade que não conseguimos conquistar com braço forte, ainda que em seu seio, ó liberdade, desafiasse o nosso peito a própria morte. Onde andarão meus companheiros... Nos perdemos naquele mesmo tempo. Na verdade eu os perdi quando me encontrei imersa em escuro medo... quando a Áurea foi presa... quando o Paulinho morreu na prisão. Você sabia que ele foi torturado para confessar sua participação no seqüestro do embaixador? Ele confessou ser o motorista do grupo, mas ainda assim morreu. É que não pôde falar da rota de fuga, nem explicar meros detalhes. Afinal, como explicar ser o motorista aos dezessete anos, sem carteira de habilitação, sem conhecer direito o Rio de Janeiro, já que era do interior e acabara de chegar?
Você não fica chocado? Então não vai entender mesmo o meu medo. Medo de ter sido vista, de ser pega, de confessar ter sonhado. Medo de morrer por não ter a esperteza de dizer a quem matei. Matei a mim mesma, matei a jovem repleta de amor e de esperança que à terra desceu enquanto no céu risonho e límpido a imagem do cruzeiro resplandecia, enquanto o gigante pela própria natureza dormitava em seu berço esplêndido. Iluminada ao sol de outros mundos chorei pela terra mais garrida, de mais bosques e mais flores. Minha vida, naqueles seios, sem amores.
Agora se ergueu da justiça a clava forte e este filho seu não fugiu à luta. Voltei.
Você nem responde... Não responde porque você só ocupa o espaço. Exaure o meu ar, oprime o meu peito e nem aproveita o que me rouba. Se agora for presa, se confessar, vou contar que matei você, senhor do meu espaço, ladrão do meu ar, usurpador do meu tempo, Brasil surdo e mudo dos sonhos que ousei sonhar. Você, que viu a decadência do capitalismo e do comunismo e me deixou de herança apenas a barbárie. Restou-me o niilismo, o incrédulo aceitar do desenfreado e afoito arroubo do escândalo e da corrupção, o indefeso sofrer da violência e da intolerância. Nem mais a chance de proclamar a minha verdade nas ruas, aos berros, ou num panfleto mimeografado, como um poeta marginal. Eu, filha deste solo, tenho em você apenas a madastra hostil, embora deva reconhecer que lá no fundo, escondidinho, meu coração ainda seja verde, amarelo, banco e azul anil.
Sonia Soares

12 de out. de 2009

Voar

Quero voar, sempre e cada vez mais alto, na tentativa de alcançar os mistérios do desconhecido, das esferas, até agora inatingíveis.
Desejo vislumbrar de perto o que há de mais sublime no universo e sentir – me privilegiada, parte de uma nova dimensão.
Voar sim sem limites, libertar – me de meu corpo, experimentar novas sensações sem que, para isso, precise morrer.
Voar para compartilhar; para revelar os segredos da criação, a quem possa interessar...
A quem possa me interessar.
 Lucia Sad

3 de out. de 2009

CICATRIZ

Há aqueles que só olham para o seu próprio umbigo, sem perceber a abrangência do todo à sua volta. São os que só vêem em close, e desconhecem a visão panorâmica; fotógrafos medíocres.

O umbigo é o primeiro acidente geográfico do corpo humano; ponto de partida. Lago profundo onde se vê a própria imagem; caverna escura onde reside o interior; gruta rugosa de veias que apontam o início de tudo; abismo de onde se emerge.

Eu bati na porta e o rapaz perguntou: “Onde?”– “No umbigo”, respondi: “prefiro prateado”. Eu nunca tinha feito um piercing. Para quê? Fiz para que me vissem, para que eu me visse, para chamar a atenção, para enfeitar a origem, para mostrar meu corpo, para me mostrar, para me garantir na tribo. “Olha eu aqui! Olhem para mim!” Olho no espelho: me vi! Me viram!

Um brinco no destino, brincando com as origens, enfeitando o pertencer à raça humana. Baixei a blusa. Só então abri o foco e vi mais em mim: montanhas, florestas, securas e umidades, picos e planícies, caminhos e descaminhos. Senti pulsar vulcões, terremotos e correntezas submersas.

Aberta a grande angular! Visão total da topografia do meu corpo, onde a cicatriz da vida, certificado de humanidade, era apenas um detalhe.

Há aqueles que só olham para o seu próprio umbigo, sem perceber a abrangência da paisagem à sua volta. São os que só vêem em close... Fotógrafos medíocres.
Luiza Lagôas

Abundância do nada

Abundância para mim significa excesso, muita coisa, o que sobra, o que dá prazer, muito prazer.
Abundância é sinônimo de plenitude: eu posso, eu quero, eu tenho, mas, será mesmo que é assim?
E o que seria abundância do nada, por exemplo?
Penso que o nada em abundância é a justa medida do que eu necessito.
O nada é subjetivo, é espiritual, é o vazio essencial.
É a certeza de uma enorme dimensão de mim.
É a transcendência.
Lucia Sad

29 de set. de 2009

CONVITE

Que tal sairmos, num fim de tarde, a brisa leve lambendo nossos corpos, os passos compassados num ritmo lerdo, braços soltos num vai-e-vem aleatório. Nos rostos apenas uma expressão serena de quem não está cumprindo nenhum compromisso, não tem hora marcada, nem destino determinado. O céu, por certo, veste seu cenário de cortinas azuis, palco iluminado onde nesgas de nuvens extremamente brancas são jovens bailarinas saltitantes, valsando por entre véus e tafetás.

Ora nos voltamos para os lados, percebendo o clima ameno, os ruídos casuais, os passantes fortuitos, ora nos fitamos intensamente, olhos encarando nossas próprias entranhas, corações ribombando em uníssono. Às vezes vamos parar por alguns instantes, como se tivéssemos esquecido algo que precisasse ser lembrado, como se duvidássemos de nossa inteira disponibilidade de ir adiante, mas em seguida nos voltamos para frente, revigorados, inteiramente entregues ao momento. Nada tumultua nossos pensamentos, cenas vividas não são relembradas, queixas eternas não se repetem, desejos alcançados não se transformam em novas necessidades. Somos apenas nós mesmos, livres, pequenos pedaços de papel escapando pelo espaço, volteando, escorregando, dobrando sobre si, desenvolvendo velocidade e ainda assim retornando ao ponto de partida.

Quando a noite por fim nos alcançar, você me tomará pela mão e eu me perderei nos seus braços, segura e entregue de corpo e alma. Sequer terei tempo de contar as estrelas, ou de me despedir das primaveras, sequer terei vontade de voltar.
Sonia Soares